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Audiência Pública discute os estudos da FioCruz e UFRJ sobre efeitos da exposição a metais pesados na população de Brumadinho

  • Fonte: ASCOM - CMB
  • Publicado em: 26/07/2022
  • Assunto: Audiência Pública

Audiência Pública discute os estudos da FioCruz e UFRJ sobre efeitos da exposição a metais pesados na população de Brumadinho

 

Na noite de 07 de julho de 2022, na comunidade de Córrego do Feijão, a Câmara de Brumadinho realizou audiência pública para discutir os estudos da FioCruz e UFRJ sobre os efeitos da exposição a metais pesados na população de Brumadinho. Compuseram a mesa: o requerente da audiência, Vereador Guilherme Morais; a Senhora Carmem Ildes Rodrigues Fróes Asmus, Professora da Faculdade de Medicina – UFRJ; o Senhor Sérgio Viana Peixoto, Pesquisador em Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz – FioCruz; o Senhor Márcio Rodrigues de Carvalho, Presidente do Comitê de Lideranças Comunitárias de Brumadinho; a Senhora Ana Paula dos Santos Assis, Presidente da Associação Comunitária de Córrego do Feijão; a Senhora Mariane Louzada, Coordenadora de Atenção Básica da Secretaria Municipal de Saúde; e o Senhor Silas Fialho, estes dois últimos Lideranças Comunitárias da Zona Quente. Estiveram também presentes os Vereadores Alessandra do Brumado, Edna Lúcia e Gabriel Parreiras.

Inicialmente foi feito um minuto de silêncio em respeito à memória das 272 vítimas fatais do rompimento da Barragem da Vale em Brumadinho. Em seguida passou-se aos estudos feitos pelas FioCruz e UFRJ em Brumadinho. Confira os pontos apresentados e debatidos na audiência pública:

 

  • PODER LEGISLATIVO

 

  • O estudo que foi apresentado pela FioCruz no dia de hoje (07/07/2022), está em todos os veículos de comunicação, tais como ‘O Globo’, ‘O Tempo’, dentre outros. A situação que temos em Brumadinho é um crime contínuo da Vale. No trajeto até Córrego do Feijão, onde foi realizada a audiência, pudemos presenciar a grande quantidade de poeira dos rejeitos de minério. E qual a qualidade dessa poeira? Nos exames ficou claro que existe sim, a contaminação, com níveis altos de metais pesados nos atingidos de Brumadinho. O Poder Público terá um papel fundamental daqui para frente, pois o papel da FioCruz é apresentar os resultados, devolutiva para a sociedade como um todo.
  • Estamos impressionados com a quantidade de novas notícias e o quanto nós, atingidos, estamos sendo atropelados pela Vale, pelos compromitentes, pela AEDAS e outros movimentos sociais, mas, sem dúvida, o trabalho da FioCruz e UFRJ é inquestionável pela qualidade técnica, porém, nas notícias publicadas, segundo todos os estudos feitos, não se aponta essa exposição a metais na população de Brumadinho, com a ruptura da barragem da Vale...não existe um nexo de causalidade com o crime da Vale; e nós sabemos que isto não é verdade, pois todos os impactos que vivemos hoje, tanto fisicamente quanto mentalmente, são decorrentes do crime da Vale...crime porque a empresa sabia...escolheu matar 272 pessoas. A resposta da Vale é que ela desconhece o estudo que está sendo realizado e irá analisar os resultados assim que tiver acesso ao documento.
  • A AEDAS está discutindo, nesse momento, a prorrogação do contrato, com gasto de mais 700 milhões de reais retirados dos atingidos, e não pôde estar aqui nessa audiência. A AEDAS não representa Brumadinho, não tem reconhecimento da população. A Vale fala em sua nota que o rejeito do minério de ferro é formado, em sua maioria, por minerais ferrosos e quartzo, sendo classificado como não tóxico e, consequentemente não perigoso. Temos um desafio gigantesco daqui para frente, precisamos de uma união dos atingidos para que tenhamos voz, pois a AEDAS não dialoga com a população, nem responde aos nossos questionamentos…não há transparência.
  • É importante falar que esse estudo não aponta um nexo de causalidade, não diz que os moradores de Brumadinho com elevado nível de metais pesados estão com esse quadro em decorrência do crime da Vale; e essa metodologia foi aprovada e validada pelo Ministério da Saúde, do Meio Ambiente, e acompanhada pelos compromitentes. Fica o questionamento: de que forma esses estudos contribuirão para a comunidade? A Secretaria Municipal de Saúde precisará se organizar para essa realidade. O que mais precisamos e pelo qual mais lutamos é que se comprove que a culpada é a Vale. Esse estudo custou 20 milhões de reais e pelo visto será preciso outro para comprovação dessa ligação com o crime da Vale. Tal estudo será incluso na pauta da reunião do Comitê de Lideranças Comunitárias (13/07), para discutir com as demais comunidades como será daqui para frente.
  • Agradecemos a todos os colaboradores da Secretaria Municipal de Saúde; toda a dedicação da FioCruz nesse importante estudo entregue ao Município; à Doutora Carmem (UFRJ), que muito contribuiu nessas discussões; ao Presidente do Comitê de Lideranças que de fato representa os atingidos; e à Associação Comunitária de Córrego do Feijão.

 

 

  • FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ – FIOCRUZ

 

  • O estudo foi encomendado pelo Ministério da Saúde à FioCruz, à UFMG e à UFRJ: Projetos Saúde Brumadinho e Bruminha (acompanha crianças de 0 a 6 anos). A opção do Ministério foi monitorar a saúde da população. Quando acontece um desastre deslocamos equipe para o território, mas depois o local fica com o problema, então a ideia é monitorar a médio e longo prazo e entender o que está acontecendo nas condições de saúde da população de Brumadinho. Esta ação é financiada pelo Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério as Saúde, sem nenhuma ligação com a Vale nem com o recurso que foi para outras ações. É um projeto independente, que está em contato com o Município o tempo inteiro.
  • Um projeto de pesquisa gera conhecimento, por isto utilizamos todo o protocolo científico para darmos cientificidade, sistematizar e investigar aquilo que a população vem reclamando desde quando visitamos Brumadinho (abril de 2019). Se não visitássemos a cidade não chegaríamos nem perto da dimensão do desastre. O apoio em planejamento em saúde está sendo feito...tivemos uma discussão muito importante com os três entes - Município, Estado e União, para que consigamos implantar as ações que precisam ser desenvolvidas em Brumadinho. Um acidente com uma barragem desse porte tem uma complexidade grande e precisamos de ações intersetoriais: não é só a saúde que vai resolver, precisamos de pensar ações em diferentes setores dentro do município. O nosso objetivo é melhorar as condições de saúde e vida dessa população.
  • Desde o rompimento estamos atuando na cidade de Brumadinho. O projeto de pesquisa foi pensado, estudado e discutido com a comunidade, aprovado por um comitê de ética, e fizemos também uma reunião com agentes comunitários, enfermeiros, técnicos de enfermagem para explicar o projeto e coletar informações; então o projeto vem sendo construído no constante diálogo com a população. O percurso foi longo e a pandemia impediu que as amostras fossem coletadas logo após o rompimento, e os resultados que serão mostrados são de amostras de 2021.
  • O Projeto Saúde Brumadinho é o estudo com a população acima de 12 anos. Nossa proposta é um estudo longitudinal ou de coorte, que significa que não iremos ao Município uma única vez, examinar e ir embora; a ideia é acompanhar, anualmente, a população. Então temos áreas diretamente atingidas, como Córrego do Feijão, onde a lama toca e está no entorno. Temos também a inclusão dos residentes em área com atividade minerária, como Tejuco. Além disso, investigamos uma amostra representativa do restante de Brumadinho; nesse projeto tivemos 3.080 pessoas participantes, com 12 anos ou mais, que conseguem representar a população de Brumadinho como um todo e assim conseguimos fazer cálculos para cada uma das regiões e também para o município como um todo.
  • As áreas consideradas censitárias (todos os domicílios foram visitados e as pessoas convidadas a participar da pesquisa, porque foram áreas de interesse maior por demanda da população por ter lama e poeira). E para o restante do Município escolhemos alguns domicílios, de forma aleatória, para participar do projeto. Agradecemos imensamente a disponibilidade de cada morador para participar e responder a uma entrevista imensa e essa é nossa primeira devolutiva para que entendam o que essas informações irão gerar. Convidamos também a população a coletar sangue e urina para uma dosagem de uma série de exames, além dos metais pesados.
  • O site para acesso do Projeto Saúde Brumadinho é minas.fiocruz.br/saudebrumadinho, que contém relatórios detalhados das pesquisas.
  • Os resultados se referem a 2021 (nossa linha de base), que é o início do período que iremos acompanhar anualmente. Em agosto de 2022 começaremos a visitar as casas novamente, coletar mais informações, fazer exames físicos (pressão arterial, peso, altura) e vamos compondo esse cenário ao longo do tempo. Então essa é a primeira fase do estudo, mas acompanharemos essa população por pelo menos quatro anos, período que já temos financiamento garantido, mas pretendemos dar continuidade depois, conforme recursos.
  • Algumas perguntas diziam respeito a diagnóstico médico: o que observamos na população adulta foi hipertensão, diabetes e colesterol (relacionados a doença cardiovascular). Essas informações foram possíveis porque a população tem acesso a serviços de saúde. O que nos chama a atenção é uma questão respiratória: quando perguntado, quanto ao diagnóstico de asma ou bronquite asmática, temos uma proporção relativamente elevada de adolescentes (12% em Brumadinho inteiro, mas que chega a 23% em Parque da Cachoeira e 17% em Córrego do Feijão). Isto é muito mais alto do que observamos no Brasil como um todo. E quando se passa para a população adulta, com asma ou bronquite, vemos 10% em Tejuco, Parque da Cachoeira e Córrego do Feijão. Isto chama atenção para uma questão respiratória que tem muito a ver com o ambiente, excesso de poeira. Percebemos uma concentração de incômodos (chiado no peito, tosse seca, irritação nasal, coceira na pele, cólicas ou dores abdominais, náusea, enjoo ou vômito, dormências ou cãibras, tonturas ou desmaios) nas regiões de Parque da Cachoeira, Córrego do Feijão e Pires.
  • Em relação à saúde mental: inicialmente fizemos o diagnóstico com a seguinte pergunta “algum médico já te disse que você tem depressão?”. Em Brumadinho como um todo isto aconteceu para mais de 22% da população (1/5 da população tem diagnóstico de depressão). Após outras perguntas, os dados nos mostram que transtornos depressivos e transtornos de ansiedade são também comuns nessa população. Esses relatos estão mais presentes em Tejuco, Parque da Cachoeira, Córrego do Feijão e Pires, que são populações que vivenciam mais esse sentimento de tristeza, depressão e ansiedade. Tivemos um rompimento da barragem e uma pandemia, duas questões importantíssimas para a saúde mental, e nos parece que a situação não está se resolvendo, por isso o monitoramento a médio e longo prazo é fundamental, para apontarmos o que será preciso fazer.
  • Questão dos metais pesados: fizemos uma nota explicativa para a imprensa com todos os detalhes, por ser um compromisso nosso, mas começaram a aparecer informações desencontradas, então é melhor falarmos do que fizemos para melhor entendimento da situação. Dosamos cinco metais (cadmio, arsênio, mercúrio, manganês e chumbo) na urina e no sangue. Entre os adolescentes observamos uma proporção elevada de níveis acima dos valores de referência. Quando digo que alguém tem um nível de metal no sague ou na urina acima da referência significa que essa pessoa vive em um ambiente onde tem metal, mas não significa que ela está doente; significa exposição e não contaminação, intoxicação ou doença, e sim um indicador que está vivendo em um ambiente que disponibiliza metal na água, solo, poeira, no peixe, etc. Então percebemos arsênio, manganês e chumbo na população adolescente, e arsênio e manganês na população adulta. Quando comparado com a população de Brumadinho como um todo, não tem muita diferença... então parece que a presença desses metais está de forma mais ampla e não somente perto da lama, o que requer investigação mais aprofundada.
  • Temos alguns fatores de risco cardiovascular e a Secretaria Municipal de Saúde já sabe como lidar com isto. A questão respiratória é muito particular das comunidades da zona quente (Parque da Cachoeira, Córrego do Feijão, Tejuco e Pires). Na saúde mental tenho um diagnóstico muito frequente em toda a população, mas sinais e sintomas de transtorno de ansiedade e depressivo acontecem com mais frequência nas comunidades em que a lama chega perto. Então precisamos de um olhar específico para essa população.
  • Fizemos algumas recomendações para a Secretaria Municipal de Saúde: monitorar fatores de risco, acompanhar doenças respiratórias, disponibilizar serviços para suporte à saúde mental, promoção da saúde. Não basta, em um cenário como este, dizer que teremos, por exemplo, trinta psiquiatras, não será isto que resolverá o problema. Precisamos mudar o ambiente, entender qual o sofrimento dessa população, fazer uma praça, disponibilizar espaço para caminhada, pensar em estratégias de promoção da saúde, olhar a questão do fumo e alcoolismo. São várias questões que estão permeadas na saúde mental e precisam de um olhar um pouco mais amplo do que somente saúde e diagnóstico médico; e verificar se o serviço de saúde já está estruturado para receber todas as demandas ou se precisará de modificações. Em relação aos metais, precisamos de um acompanhamento clínico e a Secretaria já está pronta para receber as pessoas com dosagem alterada de metal. Nossa recomendação é esse acompanhamento clínico, ver se tem mais alguma alteração no indivíduo, que pode ou não estar relacionada com metal. Estamos diante de uma situação novíssima, não tem nada pronto na literatura sobre a exposição a metais. Se eu digo que um indivíduo tem metais pesados no sangue ou na urina significa que preciso saber de onde está vindo, para saber se há a possibilidade de uma intervenção no ambiente que retire aquela exposição. O Município está correndo atrás de um serviço de referência, embora não exista no SUS esta referência para encaminhar um paciente... não tem serviço de referência em metais pesados e temos a oportunidade de mudar essa realidade. É muito importante o acompanhamento dessas pesquisas, para entendermos o que está se resolvendo e que outros problemas estão aparecendo.
  • Não aceitamos nenhum recurso da Mineradora Vale para desenvolvermos uma pesquisa independente, idônea, sem nenhum tipo de envolvimento; assim conduzimos essa pesquisa e por isto o Ministério da Saúde convidou essas duas instituições, FioCruz e UFRJ, com recursos do Governo Federal.
  • Agradecemos a equipe local: sem a Secretaria Municipal de Saúde, sem as lideranças e sem a população, não seria possível esse trabalho; e agradecemos a disponibilidade de cada um. As amostras foram para São Paulo, porque nenhum laboratório em Minas Gerais faz esse tipo de estudo. Ano que vem (2023), voltaremos para dosar metais pesados novamente.
  • MAB e AEDAS aparecem como contribuintes efetivos para a pesquisa porque eram os movimentos que desde o início aqui estavam e nos procuraram, participando de todas as reuniões feitas. Entendemos que devíamos agregar, mas não houve nenhuma influência em relação à pesquisa.
  • Em relação ao nexo causal, eu só posso dizer que uma coisa causa a outra quando essa coisa (que é o rompimento, o crime) muda uma situação, quando se altera alguma coisa. Qual o problema para se planejar um estudo de nexo causal em Brumadinho? Ninguém tem uma medida de antes do rompimento da barragem. Então, por uma limitação de conceito de causa, nosso estudo não pode afirmar...essa é uma questão conceitual de nexo causal. Sabemos que essa é uma questão importante de discussão, pois a justiça pede o nexo causal, mas a função da pesquisa foi analisar como está a saúde do Município. Ao entender como a saúde está, cientificamente, feito por pesquisas de instituições respeitadas, eu consigo entender, monitorar e sugerir que o serviço de saúde faça algumas ações. Só estamos discutindo essas questões hoje porque fizemos pesquisas que apontaram essas questões. A pesquisa descortinou um problema que estava escondido. Até então o que vocês tinham de laudo? Qual o próximo passo? Precisamos buscar onde está este metal no ambiente. Nossa pesquisa é de saúde humana. Papel de pesquisa: detectar um problema; papel do serviço: planejar para resolver esse problema.
  • Nós não podemos fazer assistência pois os pesquisadores são coordenados, vigiados ou monitorados pela Resolução 466, do Conselho Nacional de Saúde. Não é uma escolha nossa não atender, como médico, por exemplo, pois estamos seguindo uma legislação, pois só podemos monitorar do ponto de vista da pesquisa. Esse ano faremos outra pesquisa para avaliarmos se a situação está se resolvendo ou piorando… sabemos que se nada for feito a situação irá se agravar. É importante o monitoramento para conhecermos esse retrato de Brumadinho.
  • Sobre a dificuldade dos médicos em interpretar os laudos: no início, os profissionais da saúde entraram em pânico, do mesmo modo que a população, isto porque não existe, dentro do SUS, no Brasil inteiro, nenhum protocolo de acompanhamento de exposição a metais. Brumadinho está sendo o primeiro a pensar em um protocolo de assistência... serão pioneiros. Tem protocolo para exposição aguda a metal, que é aquele que trabalha com metal e será atendido pela saúde do trabalhador. Não é o caso de Brumadinho, pois é a população que está exposta, no ambiente. O serviço de saúde terá que inventar um fluxo, pois ele ainda não existe. O serviço irá acolher essas pessoas e acompanhar do ponto de vista clínico... não adianta sair repetindo exames de metal. Precisamos focar na pesquisa ambiental, para entender de onde está vindo, bem como no acompanhamento clínico dessa população.
  • Por que fizemos este estudo? A pesquisa mostra o problema... agora, junto com as Secretarias Estadual e Municipal de Saúde, e Ministério da Saúde... sabemos que o Município é que porá a mão na massa, porém não existe, na face da terra, esse encaminhamento de metal, então ele precisará inventar esse fluxo, com apoio do Estado.
  • Em relação à água: tivemos acesso a alguns laudos que aprontaram que não há problema - Mas que água é essa que está se examinando? De onde está vindo essa água? A população precisa participar dessas coletas. Não se pode deixar que Vale ou outra instituição escolha de onde pega a água e não posso ficar medindo de poço artesiano. Quem garante que a água da Copasa, que está chegando nas torneiras das casas de Brumadinho, também não tem contaminação? Estamos propondo ao Município fazer uma investigação mais ampla, com apoio do Estado, então estamos diante de uma situação nova, que ninguém tinha conhecimento até então, com metodologia internacionalmente aceita, cientificamente comprovada. Viemos a Brumadinho, como pesquisadores, para pensar em uma pesquisa a ser feita, e quando chegamos aqui fomos barrados pela Vale, um carro da Vale nos seguia e perguntava o que estávamos fazendo aqui; nos sentimos acuados e amedrontados. Foi aí que percebemos que o problema era muito maior do que questão ambiental ou de barragem. Tivemos consciência da poeira e do cheiro que nos eram relatados. Foi muito importante estarmos em Brumadinho e a cada vez que víamos aqui, mudávamos o questionário, acrescentávamos uma pergunta, porque os moradores nos davam elementos para isto. No final disto tudo percebemos que é uma tragédia, um crime, e agradeço a oportunidade de aprender com vocês como conduzir um processo tão doloroso e pesado... como pesquisadores não estamos desligados, totalmente, do sofrimento que vocês estão passando. Brumadinho será referência para outros municípios de Minas Gerais, mas para isto precisamos caminhar muito, e juntos.
  • Os dados secundários podem sim ser usados para o nexo causal, pois temos registros no DATASUS, mas esses dados são muito limitados... por exemplo, não temos exames com metais... há limitação do que conseguiremos pesquisar no antes e depois. O exame de metal indica uma exposição do ambiente, então não adianta ficar repetindo exames e sim resolver o ambiente. Muito mais importante do que repetir exames é investigar a exposição a metais, avançar nessas pesquisas ambientais. Brumadinho está sendo usado como um exercício para entendermos como devemos organizar o serviço de saúde. Há propostas de outros projetos, passando pelas comunidades de todo o Paraopeba. Parece que as evidências do ambiente estão todas fragmentadas, é preciso sistematizar, como fizemos enquanto pesquisadores. É possível que as evidências já tenham sido verificadas, mas é preciso sistematizar o que já foi estudado, sem ter que ficar pedindo, judicialmente, um laudo. Pode ter havido um equívoco da nossa equipe em dizer que o laudo viria acompanhado de um médico e pedimos desculpas se a informação chegou dessa forma, mas não foi assim o planejado. Como já comentamos, podemos fazer o exame mas não podemos prestar assistência... é uma questão ética. Espero que consigamos avançar no suporte ao serviço de saúde e manifestamos a boa vontade e investimentos que a Secretaria Municipal de Saúde tem feito. Nós também ficamos perplexos ao perceber que não existe nenhum tipo de protocolo para exposição a metais pesados. Não pensem que a pesquisa não contribui para a saúde, pois ela é a informação necessária para tomada de decisão.

 

  • UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO – UFRJ

 

  • Tivemos o prazer de trabalhar junto com a FioCruz nesse projeto, que é um programa de ações que é coordenado pela Fiocruz, que faz pesquisa com adolescentes e adultos; e nós, da Universidade Federal do Rio, com crianças, pelo trabalho que já realizamos com pesquisa em saúde materna, infantil e exposição a poluentes.
  • O objetivo do Bruminha é avaliar a exposição dessas crianças, na faixa etária de 0 a 6 anos, a metais, resíduos de metais, ao desastre que houve em Brumadinho em 2019 e que tanta dor trouxe a todos os moradores, direta ou indiretamente. É um desastre em cima de uma barreira que se rompeu com resíduos de metais; é diferente de uma enchente ou de um terremoto, então avaliar a exposição a metais é parte fundamental desse processo, e a partir daí investigar os possíveis efeitos ou impactos dessa exposição sobre a saúde dessas crianças em três aspectos: crescimento, desenvolvimento neurológico e desenvolvimento respiratório.
  • O Projeto Bruminha trabalhou especificamente com quatro localidades: Córrego do Feijão, Parque da Cachoeira, Tejuco e Aranha, e avaliou todas as crianças de 0 a 6 anos que moram nesses locais e que os pais levaram para avaliação. A faixa etária escolhida se deu porque é a etapa que se tem maior potencial de desenvolvimento humano (e não mais acontece), fase que se aprende tudo; fase também que o torna extremamente vulnerável a qualquer agente tóxico, seja um vírus ou um agente químico. A membrana que protege nosso cérebro só fica pronta e madura após dois meses do nascimento do bebê, estando completamente vulnerável a qualquer agente tóxico. O sistema imunológico, ou seja, a capacidade de defesa do corpo, só fica maduro com seis anos; devido a esta alta vulnerabilidade devemos avaliar especificamente essa população.
  • Estivemos presentes em todas as reuniões que a FioCruz realizou no Município de Brumadinho, bem como no Estado de Minas Gerais. Nossa primeira avaliação foi em 2021 e faremos a segunda em agosto de 2022, com acompanhamento por mais dois anos. Os resultados que serão apresentados são dessa primeira avaliação de saúde, que foi feita em julho de 2021.
  • Resultados parciais: o Município nos entregou uma lista de 348 crianças que residiam nessas quatro localidades (58 em Parque da Cachoeira, 51 em Córrego do Feijão, 76 em Tejuco, e 163 em Aranha). Conseguimos avaliar as crianças que os pais ou responsáveis levaram até nós: 40 em Parque da Cachoeira, 30 em Córrego do Feijão, 49 no Tejuco, e 98 no Aranha, num total de 217 crianças avaliadas, o que corresponde a 62% do total de crianças.
  • Resultados em relação à exposição a metais: avaliamos a presença de metais na urina de 172 crianças. Em todas essas amostras foram detectados metais, um ou mais dos cinco metais avaliados (arsênio, mercúrio, chumbo, cadmio e manganês); isso é terrível. Nós esperamos encontrar metais de uma forma geral na população, pois eles existem no ambiente. Todas as pessoas têm contato com metais de uma forma geral... encontrar metal é uma coisa, outra coisa é a quantidade de metal que você tem na urina ou no sangue... isso é o que nos preocupa e esse é o ponto que se deve prestar atenção. Contudo em Brumadinho, 50,6% (87 crianças) apresentaram concentrações acima dos valores de referência (do que é esperado encontrar na população). Quando isto acontece, significa que há uma exposição excessiva, quando a criança está em contato, no ambiente, com quantidade excessiva. Nosso organismo não tem capacidade de produzir metais, o que significa que sempre vem de fora, do ambiente (ar, poeira, água, solo, alimento), mas essa quantidade excessiva de metal não significa intoxicação (que é um processo de adoecimento e tem que ser diagnosticado no serviço de saúde). Encontrar metal em quantidade acima do esperado não significa que a criança está doente, significa que há exposição a uma quantidade excessiva e essa exposição tem que ser cortada. Para avaliar o adoecimento o serviço de saúde tem que fazer um conjunto de exames e avaliações clínicas. Pedimos a todos os pais cujos filhos foram diagnosticados com metais pesados acima do valor de referência, que levassem as crianças ao serviço de saúde para avaliação. Foram achados arsênio e chumbo nas crianças. O que observamos é que foram achados valores altos em todas as localidades, incluindo Aranha. Quantidade de crianças com concentrações de metais pesados acima do esperado: 44 crianças em Aranha, 22 em Tejuco, 9 em Córrego do Feijão, e 12 em Parque da Cachoeira. Um dado importante: em 52% dessas crianças os pais relataram que não usavam água mineral, que a fonte de consumo era nascente, poço artesiano ou caçamba.
  • Resultados em relação à parte de desenvolvimento neurológico: aplicamos um teste que olha quatro pontos na criança, no desenvolvimento motor (força, capacidade de segurar objetos, linguagem e desenvolvimento psicossocial ou capacidade de interação). Avaliamos 216 crianças e dessas não conseguimos chegar a um resultado conclusivo em 23 crianças, portanto tivemos uma avaliação conclusiva em 193 crianças. Dessas, a maioria (57,5% - 111 crianças) estavam com desenvolvimento completamente normal para a idade; já em 42,5% (82 crianças) percebemos um resultado de risco, ou seja, algumas dessas habilidades ainda não tinham sido adquiridas, isso significa que essa criança precisa ter uma avaliação de saúde. Contudo, não achamos associação entre as concentrações de metais na urina das crianças e essas alterações do desenvolvimento, ou seja, as crianças que tiveram alterações de desenvolvimento não foram as crianças que tiveram maior concentração de metal. Precisamos também lembrar de outro fator: tivemos dois anos sem escola por causa da pandemia. Escola não é só o lugar onde aprendemos matemática e português, escola é o lugar onde se aprende a conviver com o outro, a negociar a vez no balanço, a fazer parte do time de futebol, lugar de desenvolvimento da habilidade de lidar com o outro e estímulos ao desenvolvimento cerebral. Vamos voltar a avaliar essas crianças, tendo elas voltando ao ambiente escolar.
  • Resultados em relação à parte respiratória: os pais nos relataram que observaram alterações na saúde de seus filhos após o desastre, com maior frequência na população de Parque da Cachoeira. A grande maioria dos relatos foi do sistema respiratório (rinite, sinusite, alergia respiratória e bronquite); o segundo mais frequente foram os problemas de pele (alergia). O que foi observado é que o relato de alergia respiratória foi quatro vezes mais frequente em Parque da Cachoeira do que no Aranha; e de bronquite era 61% mais frequente em Parque da Cachoeira do que Aranha. Infecção da pele foi três vezes mais frequente em Parque da Cachoeira e Tejuco do que no Aranha. Isso tem a ver com a poeira (ambiente), independente se tem metal ou não, com agente irritador e causador de problemas respiratórios e de pele.

 

  • Resultados em relação a crescimento e ganho de peso: criança precisa crescer e ganhar peso, sempre! A grande maioria das crianças avaliadas (79,5%) estavam com crescimento, ganho de peso e altura normais (o que chamamos de índice de massa corporal). Em 15% observamos sobrepeso e obesidade, que são índices observados no Brasil como um todo; então não observamos nada diferente.
  • Recomendações da equipe de pesquisa: 1 - o que estamos sugerindo, já há algum tempo, com as lideranças, com o Município e o Estado... todas as crianças em que foram observadas alterações na saúde ou no desenvolvimento, ou uma presença de quantidade excessiva de metais, devem ser avaliadas pelo serviço de saúde. Somos pesquisadores e eticamente proibidos de fazer uma assistência à saúde. A lógica é a seguinte: o cuidado de saúde é contínuo, não é pontual, exceto nas emergências. 2 - Investigação das possíveis fontes de exposição ao arsênio e chumbo, como as fontes de consumos de água e a poeira. Já explicamos que nosso corpo não produz metal, ou seja, sempre vem de fora. Quando eu levo meu filho ao serviço de saúde e informo meu resultado, o profissional da saúde notificará a vigilância para que seja investigado o lugar onde essa pessoa mora ou o trabalho que ela faz.... precisa investigar o ambiente (poeira, solo, água). É necessário acionar o serviço de saúde para que se faça esse processo. 3 - Indicação de exame de sangue venoso para dosagem de chumbo, que é a matriz biológica mais confiável para avaliar os níveis de chumbo. Se fôssemos coletar o sangue das crianças, examinaríamos somente uma, porque poderia ter resistência dos pais. Nesse ano, conseguimos articular uma parceria com a USP (Universidade de São Paulo), para que façam avaliação do chumbo no sangue capilar (sangue do dedinho).
  • Estaremos de volta a Brumadinho na primeira quinzena de agosto, para avaliação das crianças que moram em Aranha (01 a 03 de agosto); em Tejuco (04 e 05 de agosto); em Parque da Cachoeira (08 e 09 de agosto); Córrego do Feijão (10 de agosto). Gostaríamos muito que os pais trouxessem as crianças que foram avaliadas em 2021 para nova avaliação, bem como aquelas crianças que os pais não puderam trazer.
  • Embora informando uma situação de angústia e gravidade, tentamos o tempo inteiro trazer tranquilidade e solução. Quando tomamos conhecimento das alterações nos exames, em relação às crianças, mandamos informes a todos os pais, mesmo quando os exames estavam normais. Naqueles em que estavam alterados explicamos essa alteração e orientamos que levassem o filho para uma avaliação de saúde. Tínhamos a obrigação de informar aos responsáveis; se há uma concentração excessiva de metal não significa que é uma doença... para sabermos se é uma doença é preciso fazer avaliação de saúde. É verdade que vários médicos tiveram dificuldade, em um primeiro momento, em lidar com os resultados, então entrou a disponibilidade dos profissionais da Secretaria Municipal de Saúde em nos ouvir, em um diálogo constante, fomos aprimorando e hoje eles têm capacidade de atendimento e avaliação clínica... são competentes e sabem fazer isto. A forma de lidar com metal pesado em excesso é achar a fonte dele no ambiente. Precisa-se fazer isto porque são metais que, em quantidade excessiva, são agressivos à saúde das pessoas, por isto estamos dosando.
  • Somos impedidos, eticamente, de mandar todas as pessoas que tiveram exames alterados para a Secretaria de Saúde, de passar uma lista com nomes. O que nos coube foi orientação para irem ao serviço de saúde. É preciso notificar a vigilância sanitária para fazer visita ao ambiente onde a pessoa mora e investigar a fonte de contaminação. Se continuar essa exposição, as pessoas terão problemas para sua saúde... é preciso cortar a exposição e avaliar se há um problema de saúde ou não.
  • Essa pesquisa trouxe evidências científicas muito importantes: 1 - que a população está exposta a metais que são tóxicos à saúde; 2 - que temos maior número de queixas respiratórias e de problemas de pele nas populações que estão em comunidades que estão expostas a excesso de poeira. Como pesquisadores, demos instrumentos para que esta população possa lutar pelos seus direitos.
  • Entendemos perfeitamente a preocupação da população de Brumadinho, especialmente das mães, e temos duas respostas às questões: 1 - O que esse metal pode trazer de problema de saúde? 2 - Como faço para livrar meu filho desse metal? Vamos falar principalmente da questão levantada por Aranha, que é o arsênio... ele é um metal tóxico, por isto avaliamos. O arsênio, chumbo, mercúrio e cádmio são quatro metais tóxicos à saúde humana... por isto, mesmo sem saber qual era a contaminação no ambiente, fomos avaliar. Quando se tem a exploração de um minério de ferro, precisamos levar em conta que não se tem somente ferro no minério, porque na terra, no solo também tem chumbo, manganês, arsênio... é um conjunto de metais que faz o minério. O principal minério no solo do quadrilátero ferrífero é ferro. O que ocorre é que se tira o minério, tira-se o ferro e o resíduo que tem os outros metais, coloca-se numa barreira de contenção, que aqui se rompeu, infelizmente. Então todo o resíduo desse minério, que tinha os outros metais, passou lavando o chão, depois se solidificou, virando poeira e se espalhou. Esses metais que investigamos trazem problemas à saúde humana quando essa exposição é acima de um determinado nível. O manganês, em si, não é tóxico, pois precisamos dele no organismo, mas em valores altos pode ser tóxico. Temos um estudo do Ministério da Saúde, feito na lama do resíduo, que mostrou uma quantidade absurda de manganês, muito acima do observado no solo da região. Então falamos: se eu tenho uma quantidade excessiva de manganês, posso ter problemas de saúde, por isto também o dosamos. Já o arsênio traz problemas de longo prazo à saúde, sendo um agressor da nossa pele. Pode também levar, em crianças, a alterações do processo de crescimento e desenvolvimento, principalmente em relação ao controle hormonal do ganho de peso; é também um agressor ao sistema neurológico e respiratório, sendo um metal tóxico. Se não tivéssemos investigado, vocês continuariam expostos a metais tóxicos, porém sem esse conhecimento. Nosso organismo elimina o metal, principalmente pela urina. O problema é que, embora o organismo jogue fora o metal, estamos nos expondo repetidamente (na água, no ar, etc). Para que nosso corpo possa eliminar normalmente, precisamos cortar a exposição a esses metais. O serviço de saúde precisa verificar, no ambiente onde essas crianças vivem, quais as fontes de exposição, para que se pare de ingerir... não se pode continuar com essa fonte de exposição. A maior preocupação quanto à continuidade de exposição é quanto aos idosos, pois as crianças, apesar de terem uma maior fragilidade, têm também uma maior capacidade de recuperação, ou seja, retirando-se a exposição possivelmente não haverá mais problemas, principalmente nas crianças, mas não podemos afirmar. O que precisamos entender é que temos que retirar a exposição, não podemos continuar com todos respirando e ingerindo metais. Pedimos desculpas se nossos informes trouxeram mais angústia a vocês, mas imaginem nossa situação, não podíamos ficar calados, precisávamos informar. Em relação às hortas que cultivamos, da agricultura local, bem como leite, gado, ovo da galinha, peixe... se houver a presença de metais além da quantidade considerada permitida, é preciso cortar da alimentação. A investigação do ambiente deve ser feita o mais rápido possível para que se corte essa fonte de exposição. Em paralelo a isto é preciso um acompanhamento em saúde. É inaceitável que se fique com a mesma exposição após o conhecimento da exposição de metais tóxicos à saúde.

 

  • COMITÊ DE LIDERANÇAS COMUNITÁRIAS

 

  • Começo minha fala pedindo 100% de Transferência de Renda para toda Brumadinho, pois esses estudos são a prova de mais um agravante do que nossa cidade está passando. A população está desesperada em saber dos índices de metais pesados no sangue, mas não tem uma direção do que fazer.
  • Um questionamento à FioCruz: quando vocês viram o resultado, foi apresentado ao Ministério da Saúde, secretarias de saúde municipais e estaduais? Por que nada ainda foi feito e a população está com o psicológico abalado por ter metais pesados no sangue e no corpo, sem saber o que fazer. Era para a Secretaria Municipal de Saúde estar presente e direcionando a população. A FioCruz mandou carta para algumas pessoas orientando a procurar um médico e este, por sua vez, não sabe o que fazer. Muitos desses metais foram encontrados na água... fica o questionamento: o tratamento da Copasa tira esses metais da água?
  • Estamos com uma população abalada psicologicamente, com número de suicídios aumentando. Nenhuma equipe de pesquisa reuniu a população e esclareceu os laudos que receberam. Na minha comunidade fomos muito bem recebidos pelos pesquisadores, mas o resultado chegou sem um esclarecimento. As perguntas surgem, porém sem respostas. O que acontecerá com a saúde da população de Brumadinho?
  • Se chegar uma pessoa amanhã, no PSF de Córrego do Feijão ou do Tejuco, apresentando o laudo de alteração, o que o médico falará, ou encaminhará para quem?
  • Os estudos que foram feitos em Tejuco foram a pedido do Presidente da Associação do Tejuco.

 

  • ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA DE CÓRREGO DO FEIJÃO

 

  • Quais são as previsões de investigação das fontes de exposição a metais pesados? Quais os impactos negativos estaremos enfrentando daqui para frente? Pois temos que olhar para, não somente os impactos de saúde, mas também sociais… quando se fala que está tudo contaminado, a visão de fora é que não se deve consumir nada aqui ou daqui. Foi trazido esse relatório impactante para nós, mas por que até hoje não se tomou nenhuma providência? Até quando estaremos expostos a essa contaminação?
  • FioCruz e UFRJ estão trazendo demandas sem solução? Quando foram feitas as avaliações, foi-nos dito que, na entrega dos resultados, teriam um profissional qualificado para ler os exames. No entanto os exames foram somente entregues, sem a interferência e orientação de um profissional qualificado. Estamos lidando com saúde de idosos, adolescentes, crianças e adultos... uma questão muito delicada, que precisa ser tratada com mais clareza e importância.
  • A justiça não concordou em indenizar crianças porque não tiveram danos psicológicos ou à saúde, mas os estudos mostram que houve sim impacto sobre nossas crianças.
  • O que será feito em relação à mitigação desses metais? Tem remédio, tem solução? Estamos muito preocupados em relação à agricultura e pecuária, que são fontes de renda em nosso Município.
  • Se os metais pesados estão elevados no sangue da população, as pesquisas não sabem nos dizer se há contaminação? Então porque jogaram esse resultado, sem direcionamento, para aumentar o sofrimento da população? Precisamos de informações claras e objetivas, bem como direcionamento da população, até para não entrarmos em pânico... precisamos mudar de Brumadinho? De Minas Gerais?
  • Em relação à AEDAS, semana passada tivemos uma reunião em Córrego do Feijão para apresentação de laudos, mas a AEDAS não compareceu e ainda disseram que não tinham sido avisados, o que é uma mentira. A AEDAS tem um belo discurso, mas na hora da ação e posicionamento eles não comparecem, não têm agenda ou não podem fazer. O diálogo com a AEDAS é somente para o que é benéfico para eles… tirar fotos, pegar assinatura, validar o que precisam. Quando estava prescrevendo a ação coletiva, chamamos a AEDAS para um diálogo e eles não deram nenhuma posição... eles sempre se esquivam.
  • Quando ocorreu o rompimento, o MAB estava em peso aqui na comunidade de Córrego do Feijão, mas não agregava em nada, pelo contrário, estava dividindo a população. Não tem ninguém melhor para falar por Córrego do Feijão do que a própria comunidade… somos unidos, uma família... o que tem de demanda, trazemos em reunião e aqui decidimos.
  • Pedimos respostas claras à FioCruz em relação aos estudos apresentados, para que possamos entender os riscos que corremos em relação à nossa saúde.
  • Quem não pôde fazer os exames no ano passado, poderá fazer esse ano? É justo que a comunidade de Córrego do Feijão seja testada.

 

  • SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE

 

  • Não existe um protocolo referente a metais para seguirmos, então está sendo construído, em conjunto, porque depende de outras esferas de governo. As unidades de saúde foram capacitadas; admitimos que no início estávamos desesperados, pois não tínhamos nenhum direcionamento, mas a partir das conversas e reuniões que tivemos nos últimos trinta dias, com o Ministério da Saúde, Secretaria de Estado, Ministério Público, FioCruz e UFRJ... começamos a construir um fluxo de assistência e cuidado à população. Dentre as ações as unidades foram capacitadas para fazer o atendimento, com análise clínica do indivíduo. Nós captamos esses resultados, porque não recebemos resultados nominais, até por questões do comitê de ética... por meio da população procurar a unidade de saúde que captamos os resultados que cada paciente recebeu. Então a capacitação foi feita, é contínua e estamos empenhados em melhorar a qualidade da assistência em saúde a cada dia.
  • A princípio o médico fará a análise clínica do paciente: ele tem alguma comorbidade, é hipertenso, diabético? Como estão os exames laboratoriais de hemograma, glicemia e colesterol? Se tem alguma coisa que não é da competência clínica do médico do PSF, temos especialistas na rede ou até mesmo para encaminhamento fora do Município. O que procuramos fazer nos últimos dias foi intensificar e melhorar o atendimento. Sabemos que a população está angustiada com os resultados, mas também pedimos a colaboração, pois temos os outros atendimentos, por isto orientamos a fazer o agendamento, pois não conseguimos fazer esse atendimento instantaneamente.
  • Nós temos dificuldade em entender esse processo e estamos estudando muito para capacitar nossos médicos. Estamos entendendo esse processo junto com vocês, por isto pedimos muita união. Até articular todo esse fluxo para ter um serviço de toxicologia, para ter uma compreensão, demanda tempo e esforço, e estamos fazendo isto. Juntos, vamos conseguir... pedimos a compreensão de todos...somos um só povo, estamos todos expostos. Fomos recentemente ao Ministério da Saúde solicitar uma capacitação em toxicologia, pois precisamos de forma permanente. Não podemos afirmar o tempo para que os estudos e tratamentos estejam prontos, mas saibam que estamos caminhando para isto.
  • O Secretário Municipal de Saúde não compareceu por ter positivado para COVID, tendo saído do isolamento nesta data, mas ainda está se recuperando. Ele participou da reunião pela manhã, mas não conseguiu continuar à noite.

 

 

 

  • MORADORES DE BRUMADINHO

 

  • Os profissionais do Posto de Saúde de Córrego do Feijão me disseram que não sabiam olhar o laudo e fizeram outros exames. Eles disseram que os exames feitos pelos pesquisadores estavam incompletos. Levamos aos médicos do trabalho, em Betim, pois nos disseram que eles entenderiam os laudos.
  • A AEDAS fez análises e temos laudo de que a poeira está com excesso de manganês, em Córrego do Feijão, porém também não nos deram um direcionamento ou solução. Precisamos que nos sejam dadas informações e direcionamento sobre todos esses resultados que nos foram entregues.
  • FioCruz e UFRJ colocaram que há uma diferença entre exposição e contaminação. A longo prazo o que pode trazer essa contaminação que estamos tendo (moradores de Aranha) pelo arsênio, especialmente para as crianças? Se cortada essa exposição e contaminação, esses metais ficarão no organismo das crianças? Como fazer uma descontaminação? Meu filho teve alteração, levamos ao posto de saúde, que nos informou que não tinham como avaliar… levei em outro pediatra e também disse que não podia avaliar um exame que não solicitou. Estamos todos ansiosos e apreensivos com os efeitos para nossas crianças, que estão em pleno desenvolvimento. Sugerimos que se coloquem pessoas qualificadas na saúde para atender a essa demanda da população.
  • Minha filha tem dois anos de idade e quase todos os seus exames deram alterações. Quero saber o que será feito para tratar nossos filhos. Notei em uma filha uma queda de cabelo e não sei se há relação com os metais, pois não há médicos capacitados para nos dizer isto... já levei a três médicos, que me pediram muitos exames, e a criança está com trauma de médicos; me foi falado que pode haver problemas tanto do desenvolvimento quanto nos órgãos da minha filha. Estamos fazendo exames para avaliar os órgãos dela. Não queremos somente explicação, queremos solução. Precisamos de médicos capacitados e a solução para acabarmos com essa exposição; não temos tempo, temos pressa, pois é a saúde de nossas crianças.
  • Nossas crianças estão adoecendo constantemente, tosse e coceira no corpo que não melhoram, mesmo com medicação. Precisamos da água do caminhão pipa para tomar banho, fazer comida, aguar uma verdura, então não é possível só consumir água mineral. Estamos convivendo com excesso de poeira escura, tendo que limpar a casa constantemente. Queremos respostas e soluções.
  • Estamos convivendo com más notícias há anos e quando recebemos o resultado dessas pesquisas vimos um norte... precisávamos disto porque o que percebíamos desde o início, constatamos, que todo o processo de reparação em Brumadinho está atrasado. Não queriam diagnosticar para não causar alarme. Só temos a agradecer a FioCruz e UFRJ pela contribuição com esta pesquisa. A pressão popular agora precisa ser gigante perante a Vale, Estado e compromitentes. A partir dessa pesquisa o cenário se alterou, o que estava escondido veio à tona. Precisamos nos unir, não ter medo do enfrentamento, pois prejudicados já somos todos os dias. Convidamos aos Poderes Legislativo e Executivo a direcionar a população, pois precisamos deixar de ser cobaias desse crime, expostos a vários tipos de contaminação. E sabemos que a Vale irá embora e nós ficaremos com as consequências. Esperamos que os compromitentes, que são os que decidem, enxerguem a população de Brumadinho, de forma urgente, pois estamos expostos a muitos danos.
  • Essa pesquisa traz elementos importantes que precisamos conhecer: 1 - o ambiente está contaminado; 2 - temos metal pesado em nosso corpo - Esse metal pode virar uma doença, então precisamos saber qual a fonte contaminante. Já temos informações suficientes da Arcadis e Aedas (análises que foram feitas), da Copasa, do sistema de vigilância que faz análise e monitoramento das nossas águas. Precisamos saber se a fonte é a água, pois se não podemos mais beber a água, a Vale terá que nos fornecer água de qualidade. Se a contaminação é pelo ar, qual a medida emergencial para resolver isto? Teremos que restringir o trânsito para ter menos poeira no ar? Nós, moradores de Aranha, fizemos uma carta denúncia e também solicitando questões emergenciais e não tivemos resposta concreta. Nossas crianças estão sofrendo e onde estão os compromitentes agora, para cobrar da Vale essas ações emergenciais? Mineração e vida está difícil de conciliar.
  • Queremos agradecer à FioCruz e UFRJ por este estudo tão técnico e profundo. É a universidade cumprindo seu papel público e social, mesmo em um país que ataca as universidades e ciência, e vocês se contrapõem à influência da mineração no Brasil. Ficamos espantados por não ter um protocolo em relação aos danos da mineração em um país que tem o minério de ferro como seu segundo produto mais exportado. É central para nós agora descobrir a fonte dessa contaminação e exposição. Não precisamos esperar adoecer, precisamos retirar aquilo que está provocando esse ataque à saúde, e saúde é um direito fundamental. Nesse sentido queremos ouvir as medidas do município sobre as medidas de vigilância em relação às fontes de exposição e como farão para eliminá-las. É muito importante que os estudos e pesquisas continuem e que nos organizemos contra esse crime continuado que está sendo cometido.
  • Os moradores das áreas ribeirinhas, que tiveram contato com a lama durante as enchentes precisam ser investigados também. Brumadinho, como um todo, poderá fazer exames (os moradores que quiserem fazer)? Onde está o Secretário Municipal de Saúde? Há probabilidade de desenvolvimento de câncer a longo prazo? Quais doenças podem ser decorrentes dessa contaminação? A Secretaria Municipal de Saúde, por meio de estatísticas, pode colaborar com o nexo causal (antes e depois do rompimento/crime da Vale).
  • A população do Tejuco vive dentro de uma mineradora, dormimos com o som de britadeiras, com som de apito de ré de retroescavadeira. Quando chove desce rejeito, que bate às nossas portas, de madrugada. Fazemos o apelo de que esse estudo fosse levado aos moradores do Tejuco. Não existe política pública de reparação a essas residências onde o minério desce com as chuvas. Temos o som da mineração como um som natural da infância. Desejamos um posicionamento do Presidente da Associação do Tejuco, aqui presente (Márcio).

 

  • TV CÂMARA

 

Toda a audiência foi transmitida, ao vivo, pela TV Câmara e a gravação está disponível em nossos canais oficiais: www.cmbrumadinho.mg.gov.br; Youtube: Câmara Municipal de Brumadinho ou facebook.com/camaradebrumadinho.